Este conteúdo aborda os impactos dos ciclos de juros sobre os títulos públicos, verificando como diferentes categorias reagiram às mudanças no cenário econômico entre 2016 e 2026. O artigo mostra como os títulos respondem aos movimentos da Selic e às alterações nas expectativas para inflação e crescimento econômico. O material também explora os efeitos dos ciclos sobre a marcação a mercado, a precificação das aplicações e o comportamento dos investidores, utilizando dados da Quantum, do Tesouro Direto e do Boletim Focus para embasar a análise.
Os ciclos de juros estão entre os principais fatores que influenciam o mercado de títulos públicos. Mudanças na Selic afetam a remuneração e a precificação das aplicações, impactando a forma como investidores distribuem seus recursos entre diferentes categorias.
Porém, é interessante observar que os efeitos de alta e queda das taxas não são uniformes. Dependendo da estrutura do título, as variações nos juros podem gerar impactos distintos ao longo do tempo.
Neste conteúdo, você verá como diversas categorias de títulos públicos reagiram aos ciclos de juros observados nos últimos anos. Boa leitura!
Como os diferentes títulos reagiram aos ciclos de juros?
No recorte entre 2016 e 2026, algumas aplicações passaram por reprecificações intensas. Outras mantiveram comportamento mais estável, mesmo em períodos de forte mudança na Selic. A série histórica da Quantum ajuda a visualizar essa diferença.
A base reúne o histórico de taxas de venda e de compra dos títulos públicos entre junho de 2016 e junho de 2026. O período abrange momentos como o ciclo de queda que levou a Selic a 2% a.a. em 2020, assim como o ambiente de juros elevados de junho de 2026, com a taxa a 14,25% a.a.
A comparação mostra que a sensibilidade aos ciclos variou significativamente entre as categorias disponíveis no Tesouro Direto.
Verifique o gráfico com a taxa de venda média ano a ano:

A mesma dinâmica aparece nas taxas de compra dos títulos públicos. Isso mostra que os ciclos de juros influenciam tanto a remuneração oferecida aos novos investidores quanto a precificação dos títulos negociados no mercado.
Confira o gráfico com a taxa de compra ano a ano:

Lidos em conjunto, os gráficos revelam uma lógica central: quanto maior a exposição ao ciclo de juros, maior a amplitude de variação da taxa. Como consequência, há um aumento do impacto potencial da marcação a mercado para quem não carrega o título até o vencimento.
Veja como isso ocorreu nos principais títulos!
Tesouro Selic
O Tesouro Selic foi o título menos afetado pelas mudanças de ciclo observadas na base da Quantum. Ao longo da série, suas taxas de compra e venda permaneceram próximas da própria Selic, refletindo a característica pós-fixada da aplicação.
Enquanto outros títulos passaram por fortes reprecificações, no Tesouro Selic a principal mudança para o investidor esteve na própria trajetória da taxa básica da economia.
Essa característica reduz a sensibilidade do título à marcação a mercado, o que ajuda a explicar sua utilização frequente em estratégias voltadas à liquidez e à preservação de capital.
Veja os dados de compra e venda do Tesouro Selic pelo levantamento da Quantum:
| Ano | Taxa de venda | Taxa de compra |
| 2020 | 0,07% | 0,06% |
| 2021 | 0,20% | 0,19% |
| 2022 | 0,09% | 0,08% |
| 2023 | 0,09% | 0,08% |
| 2024 | 0,06% | 0,05% |
| 2025 | 0,07% | 0,06% |
| 2026 | 0,05% | 0,04% |
Tesouro Prefixado
Os títulos prefixados foram os mais sensíveis às mudanças de cenário. A taxa média de venda dessa categoria saiu de 4,93% em 2020 para 14,18% em 2025. No mesmo período, a taxa média de compra passou de 4,81% para 14,06%.
O movimento reflete a forte reprecificação ocorrida após a reversão do ciclo de juros, quando o mercado passou a exigir retornos significativamente maiores para financiar a dívida pública.
Como consequência, investidores que precisam vender esses títulos antes do vencimento ficam mais expostos às oscilações de preço provocadas pela marcação a mercado.
Confira os números na tabela:
| Ano | Taxa de venda | Taxa de compra |
| 2020 | 4,93% | 4,81% |
| 2021 | 8,33% | 8,21% |
| 2022 | 12,61% | 12,49% |
| 2023 | 11,62% | 11,5% |
| 2024 | 11,53% | 11,41% |
| 2025 | 14,18% | 14,06% |
| 2026 | 13,76% | 13,64% |
Tesouro IPCA+
Os títulos indexados à inflação acompanharam a mudança de cenário, mas em intensidade menor do que os prefixados. A base mostra que a taxa média de venda do Tesouro IPCA+ passou de 3,3% em 2020 para 7,88% em 2026, enquanto a taxa média de compra foi de 3,18% para 7,76%.
A trajetória evidencia o aumento dos juros reais exigidos pelos investidores em um ambiente marcado por inflação persistente e expectativas econômicas mais pressionadas.
Esse comportamento reforça o papel dos títulos indexados à inflação em estratégias de longo prazo, especialmente quando há preocupação com a preservação do poder de compra.
Os dados da Quantum revelam que o movimento não ficou restrito ao Tesouro IPCA+ tradicional. O Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais alcançava a taxa média de venda de 7,8% e taxa média de compra de 7,68% em 2026.

Além disso, no mesmo ano, o Tesouro Educa+ registrava taxa média de venda de 7,57% e de compra de 7,45%, enquanto o Tesouro RendA+ apresentava 7,17% na venda e 7,05% na compra. Há também uma diferença importante em relação às alternativas mais recentes do Tesouro.
Educa+ e RendA+ foram lançados em 2023, já em um ambiente de juros reais elevados. Isso significa que esses títulos não operaram no contexto de taxas comprimidas observado em 2020, sendo precificados integralmente durante o ciclo de aperto monetário.
Confira a evolução das taxas de compra e venda do Tesouro IPCA+ e do Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais, extraída da base da Quantum:
| Ano | Taxa de venda IPCA+ | Taxa de compra IPCA+ | Taxa de venda IPCA+ com Juros Semestrais | Taxa de compra IPCA+ com Juros Semestrais |
| 2020 | 3,3% | 3,18% | 3,42% | 3,3% |
| 2021 | 4,18% | 4,06% | 4,38% | 4,26% |
| 2022 | 5,95% | 5,83% | 5,95% | 5,83% |
| 2023 | 6,02% | 5,9% | 5,97% | 5,85% |
| 2024 | 6,56% | 6,44% | 6,43% | 6,31% |
| 2025 | 7,77% | 7,65% | 7,72% | 7,6% |
| 2026 | 7,88% | 7,76% | 7,8% | 7,68% |
Veja também os dados dos outros títulos ligados ao IPCA:
| Ano | Taxa de venda Educa+ | Taxa de compra Educa+ | Taxa de venda RendA+ | Taxa de compra RendA+ |
| 2023 | 5,67% | 5,55% | 6,04% | 5,92% |
| 2024 | 6,29% | 6,17% | 6,33% | 6,21% |
| 2025 | 7,52% | 7,4% | 7,24% | 7,12% |
| 2026 | 7,57% | 7,45% | 7,17% | 7,05% |
Como mudanças econômicas alteraram o comportamento dos investidores?
Os ciclos de juros impactam a forma como investidores avaliam risco e retorno. Durante o ciclo de juros mínimos observado em 2020, as taxas dos títulos públicos atingiram alguns dos menores níveis da série da Quantum.
A partir de 2021, o cenário mudou. A Selic começou o ano em 2% a.a. e encerrou em 9,25% a.a. Como consequência, os títulos públicos voltaram a oferecer retornos nominais e reais mais elevados, afetando os incentivos dos investidores.
A trajetória da taxa Selic ajuda a contextualizar as mudanças observadas nas taxas dos títulos públicos ao longo do período analisado. Confira a evolução da meta da taxa básica de juros entre 2016 e 2026, segundo o Banco Central:
Como os investidores ajustaram suas estratégias?
Em momentos de maior preocupação com a inflação, os títulos indexados ao IPCA costumam ganhar relevância por preservarem o poder de compra ao longo do tempo. Já os prefixados tendem a ser procurados em momentos em que o mercado projeta estabilização ou queda dos juros.
Os dados do Tesouro Direto ajudam a visualizar esse movimento. Em dezembro de 2020, com a Selic na mínima histórica, os pós-fixados responderam por 44,7% das vendas do mês. Já os indexados à inflação representaram 37,4%, enquanto os prefixados somaram 17,9%.
Em dezembro de 2025, em um ambiente de juros elevados, a participação dos indexados à Selic subiu para 51,5% das vendas do período. Os indexados à inflação ficaram em 36%, enquanto os prefixados recuaram para 12,5%.
O resultado sugere preferência por liquidez em um ambiente de juros elevados e maior incerteza econômica. Nesse contexto, muitos investidores tendem a reduzir a exposição às oscilações de preço provocadas pela marcação a mercado.
A evolução das taxas de compra e venda evidencia o impacto dos ciclos de juros na remuneração ao mercado e na precificação dos títulos. Além disso, eles afetam a forma como os investidores equilibram liquidez, proteção contra a inflação e potencial de valorização.
Como as expectativas econômicas afetam os títulos públicos?
As expectativas para inflação, juros e crescimento econômico exercem influência sobre os títulos públicos. Isso ocorre porque suas taxas incorporam não apenas as condições atuais da economia, mas também a percepção do mercado sobre os próximos anos.
Aqui, é relevante verificar os dados do Boletim Focus de 19 de junho de 2026. A projeção para o IPCA foi elevada para 5,33%, enquanto a expectativa para a Selic ao fim do ano avançou para 14% a.a. O documento indica ainda expectativa de crescimento de 1,98% para o PIB.
As estimativas ajudam a formar a curva de juros, que reflete a remuneração exigida pelos investidores em diferentes prazos. O mercado tende a demandar retornos maiores para financiar a dívida pública quando projeta uma inflação mais persistente, juros elevados por um período maior ou o aumento das incertezas econômicas.
Além disso, esse ambiente costuma encarecer o custo do crédito para famílias e empresas, afetando consumo, investimento produtivo e o ritmo de crescimento da economia.
As mudanças de percepção são incorporadas à precificação dos títulos por meio da marcação a mercado. Por isso, alterações nas expectativas econômicas podem provocar ajustes nos preços dos títulos antes mesmo de ocorrerem mudanças efetivas nos indicadores observados.
Os ciclos de juros afetam os títulos públicos de maneiras distintas, influenciando suas taxas, preços e atratividade ao longo do tempo. Dessa forma, entender como as mudanças impactam o mercado permite aos investidores interpretar melhor os movimentos da renda fixa em cenários econômicos diversos.
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Resumindo
- Tesouro Selic apresentou menor sensibilidade às mudanças de juros no período analisado
- Títulos prefixados registraram as reprecificações mais intensas da série histórica levantada pela Quantum
- Aplicações indexadas à inflação ganharam relevância em cenários de maior preocupação com o poder de compra
- Mudanças na inflação, na Selic e nas expectativas de crescimento influenciam a precificação dos títulos
- A marcação a mercado incorpora essas expectativas aos preços das aplicações
- Os ciclos de juros também afetam as estratégias e o comportamento dos investidores



